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O Diabo Veste Prada: a liderança vestida de poder, medo e excelência

  • Foto do escritor: Priscila Z Vendramini Mezzena
    Priscila Z Vendramini Mezzena
  • há 5 dias
  • 4 min de leitura

Atenção: contém spoilers


Lançado em 2006, O Diabo Veste Prada não só se tornou um sucesso comercial, como também se apresentou como uma referência para examinar liderança, poder e cultura organizacional, para além do seu foco aparente na moda e na ambição profissional.


Além das atuações memoráveis, a personagem à qual o título se refere, Miranda Priestly, interpretada pela impecável Meryl Streep, provocou fascínio e desconforto. Ela representa a caricatura — talvez nem tão distante da realidade — da líder poderosa, controladora, centralizadora e egocêntrica. Uma figura ficcional, mas que nos permite reconhecer traços presentes em muitas lideranças reais.


Miranda é editora-chefe da Runway, uma revista influente que dita tendências no mundo da moda. Ao mesmo tempo em que é admirada dentro e fora da organização, é profundamente temida por seus colaboradores. O ambiente ao seu redor exige não apenas alto desempenho, mas também adequação estética, disponibilidade irrestrita e submissão a expectativas muitas vezes excessivas e desumanizadas.


É nesse contexto que Andy Sachs, recém-formada pela Northwestern e interessada em construir uma carreira no jornalismo, aceita a oportunidade de trabalhar como segunda assistente de Miranda. A princípio, Andy não pertence àquele universo. Não conhece os códigos da moda, não se encaixa visualmente no padrão esperado e tampouco compreende plenamente a dimensão simbólica daquele ambiente.


Mas, para sobreviver, precisa se transformar.


Muda a aparência. Adapta sua rotina. Passa a atender demandas absurdas, trabalhar em horários excessivos, permanecer disponível o tempo todo e suportar humilhações que são normalizadas como parte do “preço” a pagar por uma oportunidade única.


Andy é inteligente, competente e resiliente. Ainda assim, ao longo do caminho, percebe-se cada vez mais eclipsada pela força da personalidade de Miranda e pelo sistema que a cerca.


Essa é uma das grandes provocações do filme: até que ponto uma oportunidade profissional justifica a perda gradual de si mesma?


Miranda é vista como um ícone. É visionária, influente e extremamente competente. Trabalhar ao seu lado é considerado, por muitos, uma chance rara. Ela personifica um tipo de liderança em que a identidade da pessoa se confunde com a organização que representa. Sua reputação e a reputação da revista parecem inseparáveis.


E talvez por isso sua liderança seja tão complexa.


Miranda tem talento, visão estratégica, autoridade e reconhecimento. Mas essas características se misturam a uma postura controladora, centralizadora e, muitas vezes, cruel. Seu sucesso profissional parece ter sido construído também à custa de sacrifícios pessoais, relações fragilizadas e de uma cultura na qual o medo se torna ferramenta de gestão.


Em O Diabo Veste Prada 2, Miranda é confrontada por mudanças que já não controla totalmente. O mundo mudou. A indústria editorial mudou. A moda mudou. As relações de trabalho também mudaram.


As revistas impressas perderam espaço, a digitalização tornou-se imperativa, os orçamentos para produções editoriais extravagantes já não são os mesmos, e a própria Runway precisa lidar com novas pressões de mercado. A sequência coloca Miranda diante do declínio das publicações tradicionais e de uma dependência cada vez maior de anunciantes, como no conflito com Emily, antes sua primeira assistente e agora em uma posição de poder na indústria.


Nesse novo contexto, Miranda já não pode agir exatamente como antes. Sua dureza e arrogância ainda estão presentes, mas parecem mais contidas. A antiga autocracia encontra limites institucionais, culturais e econômicos.


Miranda, de alguma forma, precisou se adaptar. Não necessariamente por escolha voluntária, mas porque o ambiente ao seu redor mudou e passou a impor novos limites.


Andy, por sua vez, retorna à Runway em um momento totalmente diferente da vida. Já não é a jovem assistente tentando agradar e provar que merece estar ali. Depois de duas décadas dedicadas ao jornalismo, ela carrega mais experiência, maturidade e coerência com seus valores.


Seu retorno não é marcado pela necessidade de se moldar à revista, mas pela possibilidade de dialogar com aquele universo a partir das experiências que acumulou.


Assim, a Andy do primeiro filme tentava sobreviver ao sistema; na sequência, demonstra confiança suficiente para questioná-lo sem abrir mão de sua identidade.


Miranda, portanto, pode ser vista como uma colagem de características de muitos líderes que encontramos em empresas, projetos e equipes de diferentes naturezas. Líderes que despertam sentimentos contraditórios: admiração e medo, respeito e ressentimento, fascínio e esgotamento.


São figuras fortes, muitas vezes brilhantes, que atraem pela competência e pelo poder que representam. Mas também podem adoecer os ambientes que lideram, especialmente quando confundem excelência com exaustão, autoridade com intimidação e comprometimento com disponibilidade irrestrita.


O resultado costuma ser a criação das conhecidas culturas organizacionais tóxicas, nas quais a energia das pessoas se divide entre gerar valor e tentar agradar, antecipar reações e evitar punições.


Outro aspecto marcante em Miranda é a necessidade de delimitar claramente seu território. Ela não permite facilmente que outras pessoas atravessem os limites de sua influência. Talvez esteja aí uma das grandes diferenças entre poder e liderança.

O poder protege o território. A liderança cria espaço.


Espaço para desenvolver talentos. Espaço para que outras vozes contribuam. Espaço para que sucessores cresçam. Espaço para que a organização não dependa de uma única personalidade dominante, o que, em última instância, pode representar um enorme risco para sua própria sustentabilidade e sobrevivência.


Miranda é admirável em muitos aspectos. Sua inteligência, visão e capacidade de influência são inegáveis. Mas o brilho de um líder não deveria apagar o brilho das pessoas ao seu redor.


Isso não significa negar a importância da exigência, da qualidade, da excelência ou da ambição. Grandes resultados exigem alto desempenho. Mas o filme nos convida a refletir: a que custo?


A sequência de O Diabo Veste Prada expõe como o mundo já não tolera o autoritarismo sem limites como antes. Ou, pelo menos, começa a questioná-lo com mais força.


No fim, O Diabo Veste Prada continua sendo uma história sobre moda, carreira e escolhas. Mas também é uma história sobre poder, identidade e liderança.


Algumas lideranças impressionam pelos resultados. Outras inspiram pelo caminho que constroem.


E Miranda Priestly, com todas as suas contradições, segue nos lembrando que nem todo líder admirado é necessariamente um líder a ser imitado.



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Priscila Z Vendramini Mezzena

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